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Bianca Paim
20.07.2020
19:01
Crítica | Palavras não ditas deixam o leitor desconfortável no banal e real “Pessoas Normais”
Capa do livro Pessoas Normais, traz um fundo verde limão onde se lê o título e o nome da autora em branco nas extremidades. No centro vemos uma lata de sardinha aberta com duas pessoas abraçando-se dentro dela.

Pessoas normais acompanha a vida e as relações de dois jovens irlandeses: Connel é o craque do time de futebol da escola, na pacata cidade de Carricklea. Marianne é a menina antissocial que sofre bullying dos colegas por ser esquisita. A mãe de Connel trabalha limpando a mansão dos Sheridan, família rica de Marianne. Nesse contexto os dois se envolvem, mas um deles tem vergonha de assumir a relação e algumas decisões tomadas sob essa prerrogativa irão deixar marcas no relacionamento. No ano seguinte os dois vão para a mesma universidade e os papéis do popular e da esquisita se invertem, revelando novos medos e inseguranças nessa relação que irá transitar entre amor e amizade diversas vezes.

Ao longo de quatro anos acompanhamos a dinâmica entre estes dois personagens. Traumas causados por relações familiares destrutivas e pelo arrependimento de decisões tomadas no passado regem suas atitudes durante toda a trajetória. A enorme dificuldade que ambos têm de se comunicarem e falarem sobre seus sentimentos somadas à necessidade de agradar a todos acabam ocasionando períodos dolorosos de afastamento que vão deixar sequelas e fazê-los questionar a importância de suas vidas.

Pessoas normais vai muito além do romance, ele pode enganar por fazer uso de clichês já bem conhecidos no gênero como namoro no ensino médio e a própria relação “menino popular se apaixona por garota excluída, mas quer manter segredo”, mas o amor é tratado aqui de forma agridoce e melancólica. A necessidade dos personagens em serem aceitos nos grupos sociais e também uns pelos outros, em momentos distintos de suas vidas, gera um grande receio de verbalizar seus sentimentos criando inúmeros problemas de comunicação que afetam severamente seus relacionamentos.

Este não é um romance que irá agradar a todos. Esta narrativa possui um ritmo um pouco lento sem muita ação, uma história linear, protagonistas afundados em suas questões pessoais e coadjuvantes realmente detestáveis. Mas tem algo de muito real nos seus conflitos e de muito instigante na forma que nos são apresentados, se usando de cliffhangers e flashbacks.

Uma obra que causa desconforto, que encanta por sua narrativa crua (que ao decidir não utilizar aspas ou travessões para indicar diálogos, acaba por aproximar o leitor, que tem a sensação de estar ouvindo a história ser narrada em uma conversa casual) e por seus personagens reais, falhos, inseguros e marcados por traumas. Uma obra onde discussões sobre doenças mentais, abusos e diferenças de classes são apresentadas. Sally Rooney não faz floreios, apenas apresenta a vida e a relação de duas pessoas normais, em uma narrativa singular e lindamente bem escrita que por si só já vale a leitura.

Este é apenas o segundo romance publicado da autora – que já teve o seu Conversas Entre Amigos lançado pela Alfaguara em 2017 – mas sua narrativa já causou interesse e sua relevância cultivou fãs ao redor do mundo. Pessoas Normais ficou em segundo lugar em 2019 no Book Awards, prêmio concedido anualmente pela plataforma literária Goodreads. Além de ter sua própria série de televisão – Normal People – lançada este ano pelo serviço de streaming Hulu, com ótima aceitação do público. Mesmo sendo uma autora nova, Rooney possui uma poderosa e peculiar desenvoltura narrativa, com uma escrita ao mesmo tempo simples e marcante. Certamente é um nome ao qual devemos ficar atentos.

Palavra final: Uma história que definitivamente gera opiniões polarizadas. Um livro muito sutil sobre sentimentos e relações humanas. Uma escrita inusitada que contribui para a sensação de confusão presente nas interações dos personagens.
4.5
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Normal People
Dirigido por:
Data de lançamento: 28/08/2018
País de origem: Irlanda
Duração:
Gênero:
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