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Maurício Junio
19.07.2020
17:39
Crítica | “City of Angels” marca retorno de “Penny Dreadful”, mas sem a energia da série original

Indiscutivelmente, Penny Dreadful foi uma das melhores séries da década passada. Em três temporadas, John Logan usa de clássicos da literatura gótica britânica para criar uma trama melancólica, sombria e poética. Se em 2016, os fãs ficaram chocados com repentino final do programa, um alívio surgiu em 2019, quando o produtor anunciou uma spin-off, ambientada durante a Segunda Guerra Mundial, em Los Angeles. Penny Dreadful ressurgiu como City of Angels, e por mais que tenha mantido sua elegância, acabou perdendo um pouco de sua singularidade.

Em Penny Dreadful: City of Angels, acompanhamos uma Los Angeles perto de eclodir uma guerra racial. De um lado, brancos que estão começando a sugar os ideais nazistas de Adolf Hitler; do outro, a comunidade latina tentando sobreviver, dia após dia, aos ataques que o governo da cidade faz sobre eles. O foco central é Tiago Vega (um bom Daniel Zovatto), primeiro policial hispânico da cidade, que precisa decidir se lutará por seus ideais dentro da polícia ou se defenderá sua origem humilde.

Só que forças ocultas parecem estar agindo dentro desta cidade. Eis que surge Magda (Natalie Dormer), uma figura demoníaca que assume diferentes formas para fazer com que o clima da cidade fique ainda mais tenso. Ao mesmo tempo em que ela assume a posição de uma ativista radical que deseja defender os latinos, ela também está presente como a assistente do vereador que deseja construir uma ponte no meio do bairro latino e como uma alemã com ideais nazistas que se passa por boa moça para conquistar o coração de um médico.

Uma das características principais da série original, além do tom sombrio e da icônica Vanessa Ives interpretada por Eva Green (extremamente injustiçada nas premiações), está na mitologia que ronda os personagens, sendo diretamente conectada a trama de Ives. Doutor Frankenstein, Dorian Gray e diversas outras personalidades da literatura gótica surgem em paralelo, cada um com seus nuances. City of Angels demora a ganhar forma e a ter a complexidade necessária para desenvolver uma trama sobre guerra racial, e não se aproveita da cultura latina o bastante para criar algo complexo ao nível do que Logan fez em 2014 com Ives.

Foto: Justin Lubin/Showtime

Uma surpresa, já que quase todos os episódios foram escritos por John Logan, a mente por trás da série original. Logan tem grandes acertos ao criar personagens cheios de camadas e nuances, com suas características singulares muito bem desenvolvidas, mas acaba deixando de lado o folclore que cerca os personagens para desenvolver uma trama policial que não é complexa o bastante para segurar uma temporada de dez episódios, onde cada episódio tem uma hora de duração.

Os três primeiros episódios deixam isso evidente e são os mais problemáticos. Um roteiro que não sabe qual será o seu foco, que busca apresentar seus personagens, mas esquece de todo o resto. Toda a mitologia latina acaba servindo, nos momentos iniciais, apenas como um pano de fundo para que uma trama política não muito interessante seja desenvolvida. Felizmente, a série começa a ganhar forma e complexidade, e tem ótimos momentos nos episódios seguintes – destaque para os episódios 6, 8, 9 e 10.

E, por mais que evolua nos momentos seguintes, o programa jamais chega ao nível do show original – comparação infeliz, mas que é impossível de não ser feita, visto que ambas as séries estão minunciosamente ligadas. City of Angels não tem um protagonista complexo como Vanessa Ives, e sua mitologia e horror não chegam aos pés de Dorian Gray e companhia (e a culpa não é do material base, pois a rica cultura latina já nos entregou shows excelentes). O que nos leva a grande questão: se falta em City of Angels tudo que Penny Dreadful tinha, qual é o seu propósito?

Foto: Justin Lubin/Showtime

Num momento atual, onde o mundo fala sobre questões raciais e preconceito mais do que nunca, City of Angels surge como uma versão mais “pé no chão” da série original. Os demônios de Vanessa Ives são substituídos por um vilão realista: o nazismo que avançava descontroladamente nos anos 1940. Esta série pode falhar em entregar o que prometia – ou pelo menos, aquilo que pensávamos que ela prometia – mas faz um ótimo trabalho em construir antagonistas palpáveis e personalidades complexas, fazendo com que seu horror seja algo atual.

Outro ponto extremamente interessante da série surge na construção de alguns personagens, uma espécie de grupo de ativistas que cansaram do diálogo com pessoas brancas que nunca os escutam. Com ações duvidosas, seus ideais são belamente construídos pelo roteiro, e eles jamais aparecem como antagonistas. A criação de Logan tem um vilão bem claro dentro de sua narrativa, e o roteiro jamais confunde a reação de uma minoria com a opressão dos nazistas. E até mesmo os próprios vilões surgem com camadas que os tiram da zona da mesmice – com um inesperado romance LGBT, drama familiar, etc.

No trabalho mais desafiador de sua carreira após Game of Thrones, Natalie Dormer consegue expor as diversas características de suas personagens: Magda surge com uma presença de cena espetacular, enquanto Elsa transita entre uma doce mulher que era agredida por seu esposo e uma nazista; quando interpreta Alex, tudo muda, desde suas expressões faciais até sua postura; Rio, uma ativista com sede de sangue, mantém a presença de cena de Dormer, que repete um trabalho corporal sensacional. Sem dúvida, ela surge como a alma da série.

Foto: Justin Lubin/Showtime

Rory Kinnear é um nome conhecido da série original, num dos personagens mais emblemáticos de sua agitada carreira: John Claire. Aqui, ele retorna com um personagem um tanto diferente, mas com a mesma complexidade. Peter Craft caminha por uma perigosa jornada, onde algumas atitudes poderia ser interpretada como algo maligno – e algumas, realmente, são. Este personagem na mão de um ator ruim poderia resultar numa desconstrução horrorosa, mas certamente Craft foi feito para ele.

Destaque também para a direção de arte, que constrói uma Los Angeles perfeita dos anos 1940 – complementado com uma cinematografia opaca e levemente fria. A maquiagem é outra grande qualidade da produção, assim como o figurino, que enriquece ainda a ambientação em terras desconhecidas, além de servir como um contraste bem-vindo aos visuais sombrios de Eva Green.

Longe da qualidade irretocável da série original, City of Angels surge diferente do esperado: uma mitologia usada como pano de fundo na maioria das vezes, numa trama real e atual sobre preconceito. Os dois episódios adicionais, comparando com a primeira temporada da série de 2014, fazem diferença, ao deixar a trama menos dinâmica na sua primeira metade. Sua inconsistência inicial é um problema, mas o tom adquirido no final é sua grande qualidade. Penny Dreadful retorna sem a mesma energia de antes, mas no fundo permanece sendo a mesma Penny Dreadful.

Palavra final: Penny Dreadful retorna sem a mesma energia de antes, mas no fundo permanece sendo a mesma Penny Dreadful.
3.5
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Penny Dreadful: City of Angels
Dirigido por: Paco Cabezas, Roxann Dawson, Sheree Folkson, Sergio Mimica-Gezzan, Daniel Attias e Richard J. Lewis
Data de lançamento: 23 de abril de 2020
País de origem: Estados Unidos
Duração: 600 minutos
Gênero:
  • Terror
  • Suspense
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