Becky Albertalli, autora de "Simon vs. A Agenda Homo Sapiens", se assume LGBTQ+ em carta aberta
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João Pedro G. Tonioli
31.08.2020
16:28
Becky Albertalli, autora de “Simon vs. A Agenda Homo Sapiens”, se assume LGBTQ+ em carta aberta
Becky Albertalli

Basicamente todos os livros de Becky Albertalli retratam temas relacionados a sexualidade, descoberta e aceitação. Seja com “Simon vs. a Agenda Homo Sapiens” ou “Leah Fora de Sintonia“.

Becky nunca havia falado sobre sua sexualidade em especifico. Contudo, nessa segunda-feira (31), através do Medium, ela fez um longo texto no qual ela se assumiu aos fãs. Becky fez basicamente um grande acompanhamento de toda sua história desde o lançamento do livro de Simon até os dias de hoje.

Ela começa dizendo de quando ela foi publicar a primeira versão de Simon, em 2015, ao chegar na editora, a primeira pergunta feita a ela foi: “Qual foi a sua inspiração?” e ela não sabia responder de onde saiu essa inspiração de fazer uma história sobre um personagem que não queria se assumir para não fazer de sua sexualidade uma grande coisa. Por que uma mulher presumidamente hétero cisgênero teria escrito uma história sobre isso? Teria se baseado em sua vida? Sua escola? Ela preferiu então dizer que o que a inspirou foi sua formação em psicologia e seus anos trabalhando com crianças queer.

Apesar de tudo, ela demorou para perceber sobre si mesma. Atualmente, com 37 anos, casada com um homem, dois filhos e um gato, ela nunca beijou uma garota. E nem sequer havia percebido que queria. Mas ela relata que ao analisar sua própria vida, ela percebeu que ela teve uma queda por garotos e garotas a maior parte de sua vida.

“Eu só não sabia que as paixões de garotas eram paixões. De vez em quando, eu sentia esse tipo de atração por alguma garota que conhecia vagamente da escola ou acampamento ou aula de dança depois da escola. Eu ficaria um pouco preocupada por algumas semanas em como ela era legal, fofa ou interessante e o quanto eu queria ser amiga dela. Simplesmente nunca me ocorreu que esses sentimentos fossem atração.”

Becky ainda relata que na época e onde ela cresceu, ela não havia muito material para se espelhar e perceber que ela era daquele jeito. E mesmo que ela só tenha vindo a ter contato com pessoas bissexuais na faculdade, ela ainda não tinha muito bem definido o conceito do espectro de sexualidade e como isso funcionava.

E foi com “Leah Fora de Sintonia“, que ela escreveu em 2018, que ela começou a ter uma ideia melhor sobre essas coisas. Ela ficou preocupada em como escreveria a história de uma garota se apaixonando por outra garota, pois nunca havia escrito sobre isso ou acontecido isso diretamente com ela, mas apenas fluiu.

Quando a adaptação “Com Amor, Simon” chegou aos cinemas em 2018, a Internet colocou os holofotes nela e sua vida começou a ser vasculhada, como usual. E com isso, toda o questionamento em cima de sua sexualidade e de como uma mulher heterossexual teria escrito aquele livro. Por se tratar de uma adaptação, e muitas vezes as pessoas nem se tocarem de que era uma adaptação, logo o assunto acabou morrendo, ainda mais que o diretor do filme era gay.

Mas tudo voltou com o lançamento de “Leah Fora de Sintonia“, também em 2018, ainda mais quando o livro pegou o topo dos livros mais vendidos pelo New York Times. Becky relatou os diversos tipos de ataques que recebeu, seja de pessoas anonimas na Internet, ou até de próprios autores. Autores esses que alegavam que um livro sobre uma personagem bissexual escrito por uma mulher heterossexual havia tirado o topo de algum autor realmente LGBT. E todo esse ataque fez com que Becky se fechasse cada vez mais e ficasse cada vez mais difícil dela se aceitar ou falar sobre.

Os autores começaram a usar o termo “ownvoices” contra ela. Esse termo foi criado em 2015 com o objetivo de destacar histórias escritas por autores que compartilhavam a mesma identidade de seus personagens. Isso pode funcionar com alguns tipos de identidade, mas quando se trata de sexualidade, se torna um pouco mais complexo. Mesmo que Becky tenha já relatado algumas vezes de que era uma mulher heterossexual, não era certo usar isso contra ela, visto que muitas vezes a sexualidade vem com a negação.

Corinne Duyvis, ao criar o termo, disse que ele não deveria ser usado como uma forma de pressionar os autores a revelar suas identidades pessoais. Contudo isso continuava sendo feito com Becky repetidas vezes e isso só foi atrapalhando sua própria aceitação.

Por fim, Becky enfatizou que usar esse termo como arma pode ser realmente danoso contra autores ou pessoas que não são privilegiadas. Becky era privilegiada em diversos pontos, mas mesmo assim ela não se sentia segura naquele momento para se assumir, mas e quem não fosse?

“E se pensa que sou a única autora queer no armário ou parcialmente no armário sentindo essa pressão, você não está prestando atenção. E eu tenho sorte! Sou uma adulta financeiramente independente. Não posso ser deserdada. Venho de uma família liberal, tenho uma enorme rede de amigos e conhecidos queer, e o meu sustento não está nem remotamente em risco. Sou privilegiada de mais maneiras do que posso contar. E isso ainda foi brutalmente difícil para mim. Nem consigo imaginar como é para outros escritores no armário, e como devem sentir-se indesejados na comunidade.”

Becky Albertalli termina dizendo que não está dizendo tudo isso como forma para que neutralizem as críticas, mas sim para que as pessoas prestem atenção em quem estão criticando. Ela pede para que as pessoas sejam mais cuidadosas ao usar as armas do ownvoices e que esse tipo de discussão causa dano real. Finalizando, ela se assume uma pessoa bissexual e diz entender do porquê ela escreveu aqueles livros.

Todo o texto foi baseado no próprio texto e nas próprias palavras de Becky Albertalli e pode ser lido em sua integra em inglês aqui.


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