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Maurício Junio
29.05.2020
16:28
Crítica | O glorioso retorno de Lady Gaga ao pop em “Chromatica”

Talvez a melhor forma de analisarmos a carreira de Lady Gaga é observarmos sua jornada dentro da história da música. Em The Fame, ela abusa das características pop da época e prepara o terreno para o glorioso e visual The Fame Monster; alguns meses depois, retorna com o ambicioso e polêmico Born This Way; em 2013, os planos dão errado em Artpop, mais um projeto ambicioso, mas que não teve o mesmo apelo comercial dos álbuns anteriores e acabou sendo menor que o planejado, sendo considerado o primeiro erro comercial de Gaga.

Mas quem cai, ai de se levantar em algum momento. Em 2014, Tony Bennett estendia a mão para sua amiga e lançava Cheek to Cheek, aclamado álbum de jazz que rendeu o primeiro Grammy de Lady Gaga em quase cinco anos; dois anos depois, Joanne, seu primeiro álbum solo desde 2013, mas sem muita maquiagem e mais intimista; em 2018, seu primeiro grande trabalho no cinema, em Nasce Uma Estrela, que lhe rendeu mais um álbum aclamado, comercialmente gigante e muitos prêmios, incluindo um Oscar e vários Grammys.

É interessante fazer este tipo de respectiva pois fica claro que Gaga jamais deu um passo em sua carreira sem saber de seus riscos. Até porque, uma pessoa nada ambiciosa jamais interpretaria Maria Madalena num videoclipe ficcional onde está apaixonada por Jesus, como ela fez em Judas, e muito menos apostar num pop EDM numa época onde o gênero ainda estava dando seus primeiros passos, como fez em Artpop. Em Free Woman, quarta música de Chromatica, Gaga evidencia sua luta: “Essa é a pista de dança que eu lutei para ter“; nenhuma outra frase poderia definir melhor o seu sexto álbum de estúdio.

Colorido e ambicioso, o mundo de Chromatica jamais aparenta ser menor do que realmente é. Consciente de seus erros no passado, Gaga jamais deixa isto te afetar criativamente neste novo trabalho. Aqui, ela retorna aos seus dias de glória, num projeto electro-pop dançante e que jamais perde o ritmo, entregando aos seus fãs um álbum coeso, com letras dentro do que a música pop pede e com uma produção luxuosa, que teve ajuda de nomes como BloodPop e BURNS.

E mesmo nos seus momentos menos gloriosos, como as nada empolgantes Stupid Love e Plastic Doll. Esta primeira, curiosamente, a única do álbum que teve participação de Max Martin, famoso produtor e escritor, que ajudou Gaga, Kesha e Rihanna em alguns de seus maiores hits. Mas se o produto que Martin consegue entregar no momento é uma letra genérica que sustenta pelos vocais poderoso de Gaga e pela produção elegante de Tchami (que também produziu o smash hit mundial Turn Down For What) e BloodPop, é melhor que ele descanse um pouco.

Mas os momentos mornos de Chromatica nem se comparam aos seus ápices de qualidade. Rain On Me, com Ariana Grande, é a junção de duas potências do pop numa música bem realizada, dosada e muito divertida. O mesmo pode ser dito para Fun Tonight, que foi feita para as pistas de dança e tem tudo para ser um grande hit. 911 brinca com um pop experimental que SOPHIE, Grimes e Charli XCX conhecem bem, e entrega um produto final tão bom quanto de suas amigas. Sour Candy, com as meninas do BLACKPINK, é rápida, mas deixa sua marca.

Se os dois primeiros atos de Chromatica já estavam ótimos, o álbum atinge seu ápice nos momentos finais. Na angelical Sine From Above, ao lado da lenda Elton John, Lady Gaga entrega a melhor parceria de sua carreira, num surpreendente dueto que combina perfeitamente com ambos; e, surpreendentemente, Sir Elton John não está disposto a fazer uma balada de piano, já que esta canção pode ser definida como qualquer coisa, menos como calma.

Babylon, canção que fecha o álbum, prometia ser um hit antes mesmo de ser lançada. Seus instrumentais rondavam a internet, principalmente no aplicativo TikTok, e o resultado final não decepciona. A música como uma viagem no tempo: ao mesmo que sua produção é ambiciosa, experimental e agitada, seu ritmo é nostálgico e remete bastante a Vogue, da Madonna, e Fashion, do David Bowie, inegavelmente as duas grandes inspirações de Gaga.

Quando Chromatica termina, resta apenas um sentimento: satisfação. Em seu melhor álbum desde Born This Way, Lady Gaga entrega aos seus fãs algo que prometia a muito tempo: um electro-pop agitado, ambicioso e nada preguiçoso, assim como nos velhos tempos. É uma artista completa – que canta, escreve e atua – nos dias de glória de sua carreira, se é que podemos dizer isso de uma pessoa que fez Bad Romance, Telephone e Born This Way há 10 anos. A música pop precisava da velha Lady Gaga, e nós também.


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