Crítica | “A Casa dos Espíritos”: não se engane, esta é uma história política.
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Bianca Paim
27.12.2020
20:39
Crítica | “A Casa dos Espíritos”: não se engane, esta é uma história política.
Na imagem temos a capa do livro A casa dos espíritos que conta com uma foto de uma mulher com roupas de outra época cuja mão está sobre os olhos, acima de sua cabeça vemos algumas penas flutuando e a imagem está um pouco manchada como se fosse uma foto antiga. Na parte inferior temos o título " A Casa dos Espíritos" e o nome da autora "Isabel Allende" em branco. A história do livro acompanha várias gerações de uma família cujos conflitos se misturam ao cenário da política do Chile dos anos 60 e 70.

Um relato acerca de um período turbulento na história política de um país latino-americano indefinido, A casa dos espíritos é também uma emblemática saga familiar. Isabel Allende constrói, em seu maior sucesso, um mundo conduzido pelos espíritos e o enche de habitantes expressivos e muito humanos, incluindo Esteban, o patriarca, um homem volátil e orgulhoso, cujo desejo por terra é lendário e que vive assombrado pela paixão tirânica que sente pela esposa que nunca pode ter por completo; Clara, a matriarca, evasiva e misteriosa, que prevê a tragédia familiar e molda o destino da casa e dos Trueba; Blanca, sua filha, de fala suave, mas rebelde, cujo amor chocante pelo filho do capataz de seu pai alimenta o eterno desprezo de Esteban, mesmo quando resulta na neta que ele tanto adora; e Alba, o fruto do amor proibido de Blanca, uma mulher ardente, obstinada e dotada de luminosa beleza. As paixões, lutas e segredos da família Trueba abrangem três gerações e um século de transformações violentas, que culminaram em uma crise que levam o patriarca e sua amada neta para lados opostos das barricadas. Em um pano de fundo de revolução e contrarrevolução, Isabel Allende traz à vida uma família cujos laços privados de amor e ódio são mais complexos e duradouros do que as lealdades políticas que os colocam uns contra os outros. 

A história atravessa a vida de uma família latino-americana, contando a história de quatro gerações de mulheres incrivelmente fortes e revolucionárias, cada uma a sua maneira e à sua época, que se entrelaçam com a vida de um homem extremamente conservador e todos os desenrolares que acontecem simultaneamente na sociedade e política do país . O livro revela a capacidade humana de se transformar e de se redimir, além de nos mostrar que o ato de uma pessoa pode ter consequências graves na vida de tantas outras ao seu redor.  

Quando quase alcançara seu propósito, viu aparecer sua avó Clara, que tantas vezes havia invocado para ajudá-la a morrer, informando-a de que a graça não estava em morrer, porque isso aconteceria de qualquer maneira, mas, sim, em sobreviver, o que era um milagre. 

A mãe dessa família, Clara del Valle, desde bem pequena vive cercada por espíritos, movendo objetos com o poder da mente e prevendo o futuro. Ela também tem o costume de registrar os acontecimentos em um caderno de anotar a vida.  Clara se casa com Esteban Trueba e se torna uma mãe e esposa distraída, que vive com a casa cheia de gente: artistas, sensitivas, pessoas que lhe pedem ajuda. 
Esteban, enquanto fazendeiro rico, mantém uma relação abusiva com os empregados de sua propriedade Las Tres Marias, resistindo a aceitar a luta por direitos básicos dos trabalhadores, a quem ele costuma chamar de crianças, dizendo que precisam ser guiadas com rédea curta e não lidam bem com liberdade. O seu abuso de poder chega a patamares ainda mais condenáveis quando ele adquire o hábito de estuprar as jovens empregadas da propriedade quando bem entende. 

Justiça! É justo que todos tenham o mesmo? Os malandros o mesmo que os trabalhadores? Os tontos o mesmo que os inteligentes? Isso não acontece nem com os animais! Não é uma questão de ricos e pobres, mas de fortes e fracos.

A política na vida pública e privada 


Embora, por causa do título, sejamos induzidos a pensar que esse seja um livro de histórias sobrenaturais, essa é somente uma das marcas de sexismo que a autora procura destacar. Não se engane: essa é uma história política. Na própria biografia da escritora já está a primeira referência a se buscar para que possamos entender melhor o enredo. Isabel Allende é parente próxima de Salvador Allende, presidente do Chile deposto por um golpe de Estado em 1973, quando se instalou a ditadura de Augusto Pinochet. 
Nesta sua primeira obra, ela traz justamente muito do que sua própria família sofreu durante o ocorrido, especialmente nas partes finais do livro (quando tudo fica infinitamente mais interessante, na minha opinião). É muito interessante acompanhar a construção que ela consegue fazer de uma sociedade que vai se modificando ao longo do tempo e encaixando novas ideias e descartando outras. É um texto muito rico em observações de gênero e de estruturas sociais, até mesmo no choque entre pensamos divergentes entre a própria família.  

Os personagens que acompanhamos representam lados antagônicos: o extremo conservadorismo de Esteban (tanto dentro do âmbito familiar como posteriormente na política) contra a ideologia de esquerda (e por vezes extrema esquerda) das mulheres da família. Tais embates ideológicos não chegam a apartá-los, mas são a lenha na fogueira dos acontecimentos da trama. Afinal, é possível continuar amando uma pessoa da sua própria família que pensa tão diferente de você? 

Em todas as famílias havia alguém a quem lamentar e já não puderam dizer, como no princípio, que, se estava preso, morto ou exilado, era porque merecia. Também não puderam continuar a negar a tortura. 

Para além dos muitos questionamentos que o texto por si só nos propõe, é muito interessante quando você descobre quais são os fatos verídicos ali postos e todas as referências escondidas (ou nem tanto), como os nomes das quatro mulheres principais — Nívea, Clara, Blanca e Alba — e sua relação com a clarividência, os nomes dos outros personagens.  

A casa dos espíritos fala muito sobre educação, identidade e sobre tradição. É desses pra reler e puxar camadas novas todas as vezes.  
A impunidade cresce e permeia toda a trajetória dos Trueba, a partir da esfera privada de onde acompanhamos a história desta família e suas ramificações, também sabemos do coletivo, também nos é detalhado o quadro geral do país e esmiuçada toda a cultura latino-americana. 

O livro demorou bastante para me prender, demorei cerca de 3 meses para finalizar esta leitura. Suas primeiras 300 páginas são densas com muita informação e detalhes. Até esta marca tudo me parecia bastante trivial e estava encontrando dificuldades de me relacionar com as personagens. Mas conforme a questão política vai se acentuando na narrativa e acrescentando mais ação às páginas, tudo muda vertiginosamente. E tudo vale a pena por este final. Não que o livro inteiro não seja lindamente bem escrito, é uma obra de arte sem dúvida e a escrita de Allende é majestosa. Mas as últimas 100 páginas vão ficar gravadas na sua alma. 
 

Palavra final: Não é um livro espírita, como pode fazer pensar o título da obra. Também não é um panfleto político ideológico, como pode sugerir o sobrenome da autora. É o realismo mágico da literatura latino-americana. É a escrita perfeita, o enredo super envolvente e todo costurado. O protagonismo é feminino, a história é a da luta de classes. Tem amores proibidos, tem vingança, tem comédia, tem tirania, tem muitas frases de efeito que ficam te martelando a cabeça. O contexto é a ascensão do fascismo e a ditadura militar no Chile, mas que poderia ser na Argentina ou no Uruguai ou no Brasil de 1964. Muitos elementos aparecem no Brasil de hoje também. Inclusive, o livro parece profético, mas a verdade é que a História é cíclica e nós não aprendemos com ela.
5.0
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: La casa de los espíritos
Dirigido por:
Data de lançamento:
País de origem: Chile
Duração:
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