Crítica | "Americanah" ou um romance relevante que debate papéis de raça e gênero
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Bianca Paim
04.08.2020
18:19
Crítica | “Americanah” ou um romance relevante que debate papéis de raça e gênero
A capa do livro Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie é composta por um fundo azul com o nome da autora em branco e o título em vermelho, para remeter a bandeira dos Estados Unidos. Logo abaixo temos a silhueta da protagonista com seu cabelo afro que representa ás questões de raça que serão abordadas no livro.

Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem a delicadeza inebriante do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios de escassez e incertezas sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, cada vez mais longas, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Treze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, que ainda tenta lidar com as questões de raça que só descobriu existirem ao chegar ali. O tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que conhecia e descobrir se quer reconectar-se com a parte de si que deixou para trás. 

“Americanah” não se encaixa facilmente a uma classificação. Romance geracional dizem alguns; romance do cotidiano, urdido em tramas familiares e vidas; romance com um toque de épico em que jovens saem da África, mas levam a África para onde vão e podem (ou não) fazer o caminho de volta. Trata-se de uma história de amores, auto exílio, contestações altamente perfurantes levantadas pela protagonista Ifemelu, no blog que ela edita e escreve nos EUA a respeito de tudo que envolve o fato de ela ter se descoberto negra apenas ao chegar no país. Um romance que aborda em suas páginas, com belas e fortes passagens, um debate sobre as questões raciais. 

Ifemelu consegue ir mais além em seu blog, porquanto nigeriana, sua perspectiva é outra, daí o sucesso e a “audiência” significativos; este êxito vai competir lado a lado com o vazio que a vida vai tomando forma após a saudade de casa, do grade amor (Obinze) que ficou na pátria, e teve que seguir em frente, apesar dos seus esforços em manter o relacionamento. 

O romance torna-se ainda maior a partir de personas cujas histórias se enredam: a mãe religiosa que negocia com Deus para obter graças e melhorar de vida; o pai desempregado que se encolhe, sem esperança, diante do autoritarismo de chefetes; a filha atrevida que não se cala diante do que uma cortina de silêncio conivente com os poderosos prefere esconder; a tia inteligente, médica formada, que vive sob a proteção de um general; a professora viúva capaz de lutar de igual para igual com o professor que a desrespeita; seu filho seduzido pelo estilo de vida americano e, ainda e sempre, preso ao seu primeiro amor. E muitos outros personagens que dialogam com os já citados, e tem seus períodos de vida intercalados entre passado e presente, nos mostrando como o tempo e as dificuldades mudaram suas personalidades e perspectivas. Um Romance contemporâneo, com passagens divertidas, que aborda questões muito importantes no que âmbito da raça e do papel da mulher negra e africana, suas experiências, a forma que ela enxerga o mundo e na forma que ele a enxerga. Tudo isso sem nunca parecer militante ou forçado, apenas mantendo o tom de uma conversa aberta e a esperança de que alguém ouça e compreenda. 

Chimamanda conseguiu aqui, falar sobre amor, política, semelhanças, amizade, diferenças sociais, desigualdade racial, mudança de paradigmas, guerra, quase tudo! É uma história completa, onde os personagens ganham profundidade na medida certa, e tem seus pensamentos abertos fazendo o leitor refletir. 
Ela conseguiu fazer uma história de amor ser construída por pessoas reais, com dificuldades e alegrias reais. É fácil para o leitor relacionar vários dos pontos abordados à própria história, com assuntos como colorismo, transição capilar, relações interraciais, adaptação a um relacionamento intercultural, escolhas políticas, feminismo, depressão etc. 
Americanah é um livro para pessoas que querem entender sobre diferenças. Chimamanda tem uma escrita leve, gostosa, crítica e muito eclética. Pessoas de vários níveis podem lê-la e amá-la sem dificuldades. 

É extremamente interessante que o livro provoca um sentimento de injustiça sem ser parcial, e o ressentimento desses personagens é perceptível sem torná-los unidimensionais. Vale ressaltar que nenhum personagem secundário é opaco. Cada um deles tem suas nuances. É a isto, justamente, que se deve ao fato de o livro ter mais de 500 páginas, pois cada personagem citado aqui, por menor que seja, tem sua história contada de modo que temos a impressão de que a autora quis montar um grande cardápio de personalidades caricatas, fortemente relacionáveis, mas não de uma maneira negativa uma vez que isso aliado a escrita ágil e quase poética de Chimamanda traz ainda mais o aspecto íntimo da contação de histórias. 

Ifemelu é uma personagem realista, atenta a tudo à sua volta, sincera e com um senso de humor sagaz. Ela consegue perceber questões sobre raça, sociais e de gênero sem permitir que isso infiltre amargor em sua vida, não deixando de ser incisiva. A autora consegue discutir essa questão na narrativa sem deixar o livro forçado ou panfletário.  São incontáveis as lições sobre raça, igualdade e representatividade ensinadas neste livro de forma sutil. Mesmo através dos textos do blog de Ifemelu, que muitas vezes são ácidos e irônicos, Chimamanda é feliz no seu objetivo de realmente ensinar (até mesmo de forma didática) sobre as questões da raça e lugar de fala. É impecável a maneira com que ela consegue ensinar tanto de forma tão simples, tingindo tudo de humor e perspicácia.

Com uma escrita muito efetiva no que se propõe, sem deixar de ser poética e bem estruturada, a autora consegue nos trazer a subjetividade dos personagens e dos acontecimentos sem precisar recorrer a metáforas complexas. O desenrolar das frases tem naturalidade e precisão. 

Americanah é um livro que poderia ser descrito como “sobre um amor a distância”, “sobre os conflitos da imigração” ou “uma análise comparada das sociedades americana e nigeriana”. É um romance sensível e completo. E a sua peculiaridade se dá ao fato de que é muito mais, vai muito além das pautas sobre raça, feminismo ou imigração. É o tipo de livro que, como dizem, vai reverberar. Pois nunca termina de contar sua história. 

Na foto vemos a autora do livro Chimamanda Ngozi Adichie ao lado da atriz Lupita Nyong’o, que comprou os direitos audiovisuais da obra.

Vencedor do National Book Critics Circle Award, “Americanah” teve os direitos comprados pela atriz Lupita Nyong’o, que tem a tarefa de representar Ifemelu com roteiro escrito por sua amiga Danai Gurira.

Duas das melhores jovens atrizes negras na atualidade em Hollywood, Danai e Lupita tem em mãos uma grande história, de grande relevância sociocultural. Lupita comentou sobre sua paixão pela história do best-seller escrito em 2013:

“‘Americanah’ tem sido um projeto de paixão para mim desde que li o belo romance de Chimamanda em 2013. É um conto que é ao mesmo tempo oportuno e atemporal. A HBO Max é o parceiro perfeito para dar vida a essa história profunda e célebre, e estou emocionado que Danai traga ao projeto sua inteligência e compreensão das histórias e do mundo de ‘Americanah’.”

A diretora de conteúdos originais da HBO Max, Sarah Aubrey, em comunicado já se pronuncia com emoção sobre o projeto:

Americanah é um fenómeno cultural e é reverenciado por fãs ao redor do mundo (…) é uma das histórias mais comoventes, socialmente relevantes e românticas do nosso tempoCom talentos excepcionais como a Lupita e a Danai à frente e nos bastidores, esta série proporcionará aos espetadores uma experiência única e sincera e inesquecível.

Sem anúncio oficial pelo canal HBO Max, o projeto ainda encontra-se sem data de estreia, mas dada a luz verde da HBO Max, já criamos grandes expectativas com seus já anunciados 10 episódios. Aguardamos com muita ansiedade os anúncios oficiais!

Palavra final: Ler ficção nunca foi nem nunca será perda de tempo. Americanah é uma prova clara disso. Ler ficção constrói empatia e traz lições que marcam uma vida inteira. Não importa a nota que se dê a este romance ou a vertente crítica sob a qual se decide julgá-lo, a sua representatividade e relevância sempre irão pender com força na balança.
4.8
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Americanah
Dirigido por:
Data de lançamento: 06/04/2013
País de origem: Nigéria
Duração:
Gênero:
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