Crítica | "Herdeiras do Mar": um mergulho doloroso numa cultura em extinção
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Bianca Paim
21.07.2020
14:34
Crítica | “Herdeiras do Mar”: um mergulho doloroso numa cultura em extinção
Capa do livro Herdeiras do Mar é dividida em duas partes: a da esquerda tem ilustrações de crisântemos (a flor possui importância na cultura abordada na história) sobre um fundo vermelho rosado; e a da direita mostra parte do corpo e do rosto de uma menininha que olha ao longe sob um filtro preto e branco como em uma lembrança.
White Chrysanthemum é o título original da obra e está representado pela ilustração de crisântemos brancos do lado esquerdo da capa comercial do livro.

As irmãs Hana e Emi vivem em uma simples comunidade litorânea na província de Jeju, Coréia do Sul; todos os dias as garotas acompanham sua mãe até a praia para que possam pescar seus alimentos e garantir o sustento da família. Como todas as suas ancestrais, as garotas serão herdeiras da cultura haenyo, serão garotas do mar e continuarão essa prática tão antiga fazendo sua cultura permanecer viva.


Certo dia, enquanto Hana ajudava sua mãe com a pesca do dia nas profundezas do mar, Hana avista um soldado se aproximando de sua irmãzinha na beira da praia. Desesperada, Hana nada em uma tentativa de chamar a atenção do soldado. São tempos difíceis, os japoneses estão colonizando a Coréia, há guerra, fome e muitas injustiças e, principalmente, muitas garotas estão sendo raptadas e perdendo o controle de suas vidas e seus corpos para servirem de “mulheres de consolo” aos soldados durante a guerra.


Hana é levada para a Manchúria, muito longe de casa e se torna uma vítima de escravidão sexual. Como já se pode imaginar, a vida da garota não será nada fácil, ainda mais na mão de militares tão brutais. Contudo, Emi também sofrerá muito, a falta da irmã é tão grande quanto a culpa que ela sente por ter deixado Hana ser levada para protegê-la, além do mais os perigos na província continuam e Emi também sofrerá as consequências da guerra. Agora, essas duas irmãs, a quilômetros de distância, lutam para continuarem vivas movidas pela esperança de um dia se reencontrarem.

Esta é uma obra de ficção, porém, o sofrimento das mulheres e de suas famílias foram muito reais na Coréia em meados da Segunda Guerra Mundial. Entre tantas mortes e violência, muitas mulheres foram escravizadas, torturadas e morreram durante atos brutais. É preciso lembrar dessas mulheres, dos sacrifícios que elas foram obrigadas a fazer, de todo o trauma que passaram, todo o terror e dor.


A história se passa em duas linhas temporais, acompanhamos as lutas de Hana para sobreviver e voltar para sua amada família e o impacto destes atos no futuro de Emi, que cresce carregando o peso da ausência da irmã enquanto se esforça para manter viva a cultura das mulheres haenyeo. A crueldade, a violência e opressão foi intensa na vida de ambas, porém, a força de cada uma delas, seus desejos por justiça, sua garra para sair de tais situações é algo incrível de acompanhar. Uma obra muito delicada, necessária e emocionante.

Há muitos séculos, as haenyeo são mulheres pescadoras da província coreana da ilha de Jeju. Elas trabalham por conta própria. Desde cedo, treinam seus pulmões e corpo para mergulhar nas águas geladas do mar, sem nenhum equipamento de respiração.
Com as mãos, pescam e juntam em sua rede ostras, polvos e tudo que puderem agarrar. A tradição das “mulheres sereias da Coréia” exige muito do corpo, e como se podia esperar, está perdendo espaço entre as gerações mais novas e está seriamente ameaçada de desaparecer.


Eu nunca tinha ouvido falar dessas mulheres, e só por aprender sobre as haenyeo, já considerei a experiência do livro maravilhosa.
Mas a imersão cultural que o livro traz é ainda maior. É importante ressaltar que a história se passa durante a ocupação da Coréia pelos japoneses, durante a segunda guerra. Quase nunca a perspectiva das mulheres é levantada ou discutida quando falamos de campos de batalha e conflitos, como vemos nesta narrativa.


Em Herdeiras do Mar, a visão é de como as mulheres podem ser exploradas em regiões de conflito. Escravas sexuais, prostitutas, mulheres que perdem o controle sobre seus corpos para satisfazer soldados.Uma exploração que transforma a vida de uma mulher – e que tem sido esquecida e silenciada entre as inúmeras consequências de uma guerra.

– Estima-se que entre 50 e 200 mil mulheres foram sequestradas, enganadas ou vendidas para servir como escravas sexuais aos japoneses durante a ocupação da Coréia pelo Japão. A maioria morreu no caminho, ou durante o tempo de exploração sexual.
– Muitas das “halmoni” (avós) que sobreviveram à exploração sexual nunca conseguiram contar sua experiência aos familiares ou comunidade. Em nome da honra de uma sociedade patriarcal, muitas foram abandonadas pelos familiares quando conseguiram voltar pra casa. E viveram o resto das suas vidas sozinhas, ou junto de outras ‘halmoni’.
– Somente em 1991, mais de 40 anos depois do fim da ocupação japonesa, a primeira mulher veio a público falar sobre a realidade das ‘mulheres de consolo’ durante os tempos de guerra. Seu nome foi Kim Hak-sun. Com esse ato de coragem, outras se pronunciaram depois dela.


Aprender tudo isso em um livro é muito. É um mergulho numa cultura totalmente nova, e um aprendizado dolorido e necessário sobre os lugares que as mulheres foram forçadas a ocupar – e suas formas de resistir.
Confesso que no começo, o livro me parecia um tanto lento e bastante reflexivo, por vezes perdendo o foco da narrativa principal. Mas eu me interessei por aprender sobre esse mundo e sobre suas histórias.


Herdeiras do mar é um livro muito significativo.
Primeiro, porque foi um livro escrito por uma descendente (Mary Lynn Bracht é alemã e descendente de coreanos – sua mãe nasceu e viveu num pequeno vilarejo na Coréia do Sul, que a autora chegou a visitar), que me mostrou saber tanto sobre sua cultura e o país de onde vieram seus pais. Isso abre novas perspectivas. Segundo, porque foi um livro muito tocante, e que ensinou, mais uma vez, como em todas as sociedades e em todos os tempos, as mulheres vem sendo exploradas de tantas formas – e vem encontrando outras tantas maneiras de resistir. É uma realidade que não podemos esconder e sobre a qual precisamos ler e conhecer. Que precisamos denunciar.

Palavra final: A narrativa tem um ritmo um tanto lento para facilitar que o leitor consiga absorver aos poucos histórias tão pesadas. A escrita é bastante descritiva de forma que se pode visualizar as mais hediondas cenas descritas, proporcionando o impacto necessário para que não esqueçamos o que estas mulheres enfrentaram.
4.0
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: White Chrysanthemum
Dirigido por:
Data de lançamento: 09/06/2020
País de origem: Estados Unidos
Duração:
Gênero:
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