Crítica | "I May Destroy You" é a melhor série do ano
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Maurício Junio
01.09.2020
21:30
Crítica | “I May Destroy You” é a melhor série do ano

Michaela Coel é um dos nomes mais promissores da televisão britânica, e I May Destroy You afirma isto. Talvez poderíamos colocá-la lado-a-lado com Phoebe Waller-Bridge, criadora de Fleabag, e analisar como as carreiras delas se assemelham bastante desde seu surgimento. Se Waller-Bridge surgiu em 2016 com uma série de baixo orçamento e que não chamou muita atenção do público, Coel surgiu quase na mesma época com Chewing Gum, que ganhou sucesso internacional apenas em 2017, quando começou a ser distribuída pela Netflix (o que também aconteceu com Fleabag, que começou a ser distribuída pela Amazon e tornou-se um fenômeno mundial). Se em 2019, Phoebe ganhou o mundo, chegou a hora de Michaela conquistar o universo.

E I May Destroy You é a série – ou minissérie, ainda não sabemos – que fará com que isso aconteça. Aqui, acompanhamos Arabella, uma jovem escritora que decide sair com seus amigos para uma noite de muita bebedeira num bar luxuoso de Londres, mas acorda no dia seguinte sem se lembrar do que aconteceu. Pouco à pouco, as peças vão se encaixando e ela começa a ter pequenos lapsos de memória, até que consegue se lembrar de que foi violentada sexualmente na noite passada. Assista ao trailer clicando aqui.

Sua nova série segue uma linha autobiográfica, pelo menos nos primeiros episódios. Em 2018, sua criadora divulgou que foi abusada sexualmente durante a produção de Chewing Gum. Ela lembrou, durante uma entrevista no Festival lde Televisão de Edimburgo, que acordou no dia seguinte sem lembrar de absolutamente nada: “A próxima coisa que eu me lembro é estar na frente do computador, no dia seguinte, digitando“.

Mas é importante traçar uma linha de interpretação na narrativa de I May Destroy You que não a coloque num patamar de simples autobiografia, mas que vá além disto. Por mais que suas inspirações surjam de tristes acontecimentos na sua vida real, estamos falando de um projeto fictício e, mesmo se tratando de um problema tão comum na sociedade, não deve ser analisado como um retrato de sua roteirista. Ao longo dos doze episódios da série, fica claro que Arabella é um retrato de milhões de pessoas que são abusadas sexualmente todos os dias, e precisamos falar sobre elas. Sabendo disso ou não, Michaela Coel criou um roteiro que vai muito além dela mesma.

Arabella, portanto, surge como uma personagem que se transborda para além das páginas do roteiro. Sua dor é palpável, sua confusão é facilmente sentida pelo espectador e os méritos disso tudo são de Michaela: seu roteiro afiadíssimo e sua atuação irretocável expõem uma personagem cheia de defeitos, um tanto irresponsável, e é justamente isso que faz dela algo tão realista, o que se reflete diretamente no programa. Seu roteiro é tão primoroso que acaba criando uma outra protagonista: Londres, a cidade, que tida o sentimento de quem assiste sempre que possível, numa experiência de confusão, perigo e pavor, que nos coloca ainda mais próximos de sua real protagonista.

Mas engana-se quem acha que I May Destroy You foca sua atenção apenas nos abusos sofridos por sua protagonista. No seu time de coadjuvantes, núcleos secundários surgem e complementam ainda mais o roteiro de Coel. Com um controle sensacional de sua obra – graças a sua interferência na produção, direção e roteiro da série -, tudo parece estar posicionamento em seus devidos lugares: os abusos sofridos por Kwame (o ótimo Paapa Essiedu) expõe um outro lado da violência sexual, Terry (Weruche Opia) é uma persona numa trama quase feliz em meio de tantos horrores e Theodora (Harriet Webb), que aparece menos que os dois citados anteriormente, deixa sua marca – principalmente no episódio 6, que é sensacional.

Afinal, esta é uma grandes qualidades do roteiro: trabalhar diversos assuntos num curto período de tempo sem transformar isso numa narrativa inchada, cansativa e apelativa. Desenvolvimentos secundários trabalhando abuso psicológicos, relacionamentos abusivos, conceitos de sexualidade, relacionamentos amorosos em tempos de aplicativos de encontros, o abuso da indústria cultura (em foco, a indústria literária) e o tratamento de pessoas negras em prol de beneficiar empresas de pessoas brancas (numa crítica extremamente ácida a uma elite “sustentável” que busca salvar o mundo sem olhar para os mais pobres) são tratados em diversos momentos, e soam mais complexos do que aparentam num primeiro contato.

Quando chega ao fim, após doze incríveis episódios, I May Destroy You deixa dois sentimentos em quem lhe assiste: aquele arrepio na espinha, numa sensação de vulnerabilidade, de que aquilo pode acontecer com qualquer pessoa ao seu redor – incluindo você mesmo -, e a afirmação de que Michaela Coel pode fazer absolutamente tudo com maestria. Ela dirige, escreve, produz e atua esta série, e tudo com uma qualidade surpreendente. Mesmo quando se distância da realidade – o episódio final é um excelente exercício interpretativo, além de ser muito interessante -, tem-se aqui uma produto artístico de alto nível, e que certamente deixará sua marca. Coel precisa ser admirada não apenas por filtrar toda sua dor em arte, mas por ser extremamente talentosa.

Palavra final: Num roteiro semi-biográfico, I May Destroy You nos leva a uma narrativa moderna sobre abusos e medos. Michaela Coel precisa ser admirada não apenas por filtrar toda sua dor em arte, mas por ser extremamente talentosa.
5.0
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: I May Destroy You
Dirigido por: Michaela Coel
Data de lançamento: 16 de junho de 2020
País de origem: Reino Unido
Duração: 30 minutos
Gênero:
  • Drama
  • Comédia
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