Crítica | "Judas e o Messias Negro" é um poderoso manifesto sobre racismo
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Maurício Junio
12.04.2021
17:12
Crítica | “Judas e o Messias Negro” é um poderoso manifesto sobre racismo

Quando Judas e o Messias Negro foi anunciado, muita dúvida existia sobre seu poder em relação a história pertinente sobre a qual se trata. Parecia ser, levando em consideração as poucas prévias daquela época, um filme sobre ativistas inimigos. Contudo, seus primeiros minutos mostram que qualquer pré-conceito estabelecido sobre ele está completamente errado, mostrando-se um dos filmes mais poderosos de seu tempo, um manifesto sobre racismo estrutural nos Estados Unidos, revisitando o passado para contar a triste realidade do presente.

O filme acompanha o plano de Bill O’Neal, convencimento por agentes do FBI, a se infiltrar no partido dos Panteras Negras e coletar informações sobre o ativista Fred Hampton. Quando todas as informações sobre o partido começam a ser reveladas aos agentes, os membros começam a desconfiar um suposto traidor, colocando O’Neal em uma corda banda, indo contra aqueles que defendem sua própria liberdade. Assista ao trailer clicando aqui.

Tem-se aqui um filme que respira; não apenas por sua importância social, que se torna mais urgente que nunca, mas por seu excelente roteiro e por uma direção irretocável que compreende seu texto. E um trabalho completo, bem executado e que amplia um momento conturbado da história estadunidense, num ocorrido que marca a comunidade negra até hoje – e suas marcas permanecem neste povo, mais visíveis que nunca, e é fácil perceber isso analisando as centenas de manifestações ao redor do planeta a morte de pessoas negras inocentes nas mãos de brancos, por muitas vezes policiais.

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Aqui, Shaka King sabe o momento correto de posicionar todo e qualquer desenrolar da narrativa. Seus protagonistas se desenvolvem ao decorrer de todo o longa, o roteiro mescla perfeitamente entre momentos mais apaziguadores e outros – necessariamente – explosivos e tudo parece caminhar para um terceiro ato avassalador, capaz de deixar quem assiste de boca aberta e com o coração explodindo no peito. E caminha. Pode até parecer que o filme quer chocar o espectador de forma gratuita, mas não; é uma realidade dolorosa, e a câmera de King sabe muito bem o que explicitar ao expectador e o que deixar subjetivo, e esse jogo de câmera é um deleite no resultado final.

No centro de tudo isso, dois astros brilham. Inicialmente, Daniel Kaluuya parece estar numa performance contida, mas, de acordo com as camadas que roteiro vai adicionando a Fred Hampton, sua atuação vai crescendo até ficar maior que o filme. O mesmo não pode ser dito de Lakeith Stanfield, que já começa o filme gigante, com maneirismos raros dentro do cinema e com emoção explodindo em suas expressões faciais; um olhar, uma lágrima, a forma que ele se movimenta e até mesmo sua risada são cheios de camadas, e o roteiro abre espaço para Stanfield apresenta ao mundo o trabalho de sua carreira. Ambos concorrem ao Oscar como coadjuvantes, mesmo ambos sendo protagonistas de seu próprio filme.

Em um ano tão doloroso para a comunidade negra, não apenas nos Estados Unidos, mas ao redor do mundo, Judas e o Messias Negro é filme que vai além de suas brechas; ele transborda realidade além da televisão, vai além de um filme sobre ativismo com mensagens baratas e surpreende por sua crueza – e tudo isso é otimamente trabalho na cinematografia e na direção de arte. Poderoso como poucos filmes conseguiram ser nesta temporada de premiação. Spike Lee deve estar orgulhoso de Shaka King.

Palavra final: Em um ano tão doloroso para a comunidade negra, não apenas nos Estados Unidos, mas ao redor do mundo, Judas e o Messias Negro é filme que vai além de suas brechas; ele transborda realidade além da televisão, vai além de um filme sobre ativismo com mensagens baratas e surpreende por sua crueza.
5.0
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Judas and the Black Messiah
Dirigido por: Shaka King
Data de lançamento: 25 de fevereiro de 2021
País de origem: Estados Unidos
Duração: 126 minutos
Gênero:
  • Drama
  • Policial
  • Biografia
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