Crítica | "Mank" é o divisor de águas na carreira de David Fincher
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Maurício Junio
21.04.2021
19:10
Crítica | “Mank” é o divisor de águas na carreira de David Fincher
"Mank" (David Fincher, 2020) é uma obra de Hollywood para Hollywood; um trabalho rico e muito elegante, que certamente merece ser admirado.

Mank” é o divisor de águas na carreira de David Fincher. E isso não é uma teoria ou opinião, mas sim uma afirmação. Por muito tempo, Fincher atingiu a aclamação da crítica e do público com poucas contestações, mas o completo oposto aconteceu aqui. Se alguns enxergam “Mank” como uma excelente releitura de um dos grandes momentos da antiga Hollywood, outros enxergam o filme como prepotente, cansativo e sem muito a contar ao seu expectador. Felizmente – ou não – faço parte do primeiro grupo de pessoas.

Com um roteiro assinado por Jack Fincher – pai do diretor que faleceu em 2003, mas escreveu o roteiro que, posteriormente, foi trabalho pelo filho -, o filme acompanha a conturbada criação do roteiro de “Cidadão Kane“, considerado o melhor filme da carreira do diretor Orson Welles e um dos maiores de todos os tempos. O foco é na figura de Herman J. Mankiewicz, que co-escreveu o filme juntamente com Welles e lutou até os seus últimos dias com as divergências criativas que teve com o diretor. No filme de Fincher, acompanhamos Mankiewicz imerso em uma Hollywood que inspirou cada detalhe da sua obra-prima. (trailer aqui)

Antes de embarcar na jornada que os Fincher propõem a você, algo precisa estar claro: este é um filme lento, sem nenhum clímax ou chave de ignição capaz de fazer com que a narrativa flua mais rápido. Basicamente, o roteiro coloca o espectador no dia-a-dia de seu protagonista dentro de um ambiente extremamente tóxico, num texto que se movimenta com base nos diálogos e nos personagens secundários. Certamente um filme lento não significa um filme ruim, mas o roteiro de Jack Fincher se prolonga demais em alguns momentos e, em outros, não sabe dosar bem quando a obra precisa ser mais intimista, explosiva ou grandiosa, mas David Fincher faz o possível para que isto não interfira tanto na experiência do seu expectador.

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E seus motivos para não interferir no roteiro escrito por seu pai são aceitáveis, e ele tenta recuperar isto no seu trabalho como diretor, o que funciona muito bem. É uma grandíssima homenagem à Jack, mas o mesmo não pode ser dito da trama que ele criou. “Mank” está longe de ser uma homenagem sobre a Old Hollywood, e talvez a melhor forma possível para definirmos este filme é, na verdade, dizermos que é uma declaração de ódio à todos aqueles que conquistaram poder dentro da indústria, usando como pano de fundo a criação de um dos maiores filmes da história.

No centro de tudo isso, Gary Oldman entrega mais uma grande atuação em sua carreira. Ele consegue dosar bem todas as conturbadas facetas de Herman, fazendo-o ir além do roteiro. Talvez Oldman seja considerado um dos grandes atores de nossa geração por fazer absolutamente tudo; em certo momento, o ator desaparece para que Herman ganhe vida, e isto é um triunfo. Porém, ele está longe de ser o destaque.

Por mais que apareça pouco, Amanda Seyfried é o grande destaque aqui, roubando toda a atenção do filme para si. Sua Marion Davies é uma performance completa, que atravessa a linha do carisma e expõe todo o seu talento – que não é nenhuma novidade para quem viu “Twin Peaks: The Return” e “First Reformed“. É, visivelmente, uma personagem com alma, e Seyfried se entrega por completo. Uma das grandes atuações do ano de 2020, e uma das indicações mais justas ao Oscar 2021 nas categorias principais.

Destaque também para a direção de arte, maquiagem e figurino, que recriam os anos 1940 com perfeição. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross é perfeita em dar o tom que Fincher quer para o seu filme. E a cinematografia em preto e branco é uma escolha arriscada para um filme tão obscuro, mas cai como uma luva, num olhar sem igual de Erik Messerschmidt. “Mank” recebeu 10 indicações ao Oscar, a metade em categorias técnicas, e certamente é um dos grandes destaques da temporada.

É difícil prever qual será a sua experiência com o filme. É claro que é preciso ter um conhecimento prévio de “Cidadão Kane” para assisti-lo – recomendo que veja o clássico, mesmo que não queira encarar este -, mas “Mank” vai muito além de uma cinebiografia. É uma obra de Hollywood para Hollywood, um trabalho riquíssimo e muito elegante, que certamente merece ser admirado. Mesmo com receio, algo é certo: sempre é um grande prazer ver David Fincher dirigindo, independente de qualquer coisa.

Palavra final: "Mank" é uma obra de Hollywood para Hollywood, um trabalho riquíssimo e muito elegante, que certamente merece ser admirado. Sempre é um grande prazer ver David Fincher dirigindo, independente de qualquer coisa.
4.0
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Mank
Dirigido por: David Fincher
Data de lançamento: 4 de dezembro de 2020
País de origem: Estados Unidos
Duração: 131 minutos
Gênero:
  • Drama
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