Crítica | Com delicadeza, "Minari" mostra que o sonho americano é, na verdade, um pesadelo
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Maurício Junio
20.04.2021
17:05
Crítica | Com delicadeza, “Minari” mostra que o sonho americano é, na verdade, um pesadelo
Jogando um balde que água fria na fantasia do sonho americano, Minari mostra que este sonho está mais próximo de um pesadelo que do paraíso.

Desde quando éramos crianças, o “sonho americano” ultrapassou barreiras das fronteiras e se transformou num desejo mundial. Na tela da TV, famílias felizes e bem-sucedidas que passam as férias de verão nos parques da Disney viraram o objetivo de vida de muitas pessoas, numa falsa sensação de que tudo é fácil, e que os Estados Unidos é realmente a terra da liberdade para todos aqueles que desejam habitar nela. Jogando um balde que água fria nesta fantasia, Minari mostra que o sonho americano está mais próximo de um pesadelo que do paraíso.

No filme, dirigido pelo ótimo Lee Isaac Chung – que também assume o roteiro, igualmente excelente -, acompanhamos uma família sul-coreana que abandona a vida que levavam na Coreia do Sul para embarcar numa jornada de enriquecimento e prosperidade nas terras do Tio Sam. Consumidos pela esperança de dias felizes, eles acabam percebendo que o sonho americano não foi feito para eles, e encaram uma vida onde não se sentem confortáveis na própria terra que compraram. (trailer aqui)

O grande mérito de Minari é narrar uma história com tantas críticas sociais – feitas de um americano para os americanos – sem jamais soar prepotente. É um filme com o pé no chão, com um desenvolvimento calmo e com um propósito muito bem estabelecido. Uma jornada sobre um país que não prospera como no passado (mas será que realmente foi aquele paraíso que todos sonhavam?), num lugar onde o sonho americano é, literalmente, um sonho, cada vez mais distante.

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A partir disso, o roteiro de Chung estabelece alguns pontos de apoio para desenvolver seus personagens: a perspectiva do caos nos confortáveis olhos de David (um ótimo Alan S. Kim), um pai (Steven Yeun no grande papel de sua carreira) em busca de criar o mundo que prometeu aos seus filhos e uma avó (a irretocável Yuh-Jung Youn) pronta para acreditar que aquela terra dará a prosperidade que eles tanto sonharam por anos, por mais que esteja vendo tudo ir por água abaixo. Por consequência, Minari nunca aparenta ser o filme assustador que realmente é, e isso é estupendamente bem feito.

Como dito, este é um filme feito por um americano criticando a cultura americana, mas, assim como este sonho inalcançável, vai além de fronteiras. Lee Isaac Chung cria uma obra simples e poderosa que, mesmo com alguns pequenos problemas (a edição por exemplo, prolonga o segundo ato mais que o necessário), jamais perde sua força. Um retrato de seu tempo, doloroso como poucos filmes conseguem ser. Quando a tela fica preta, você agradece pelo balde de água fria que foi jogado em você. É hora de acordar.

Palavra final: Jogando um balde que água fria na fantasia do sonho americano, "Minari" desconstrói e mostra que esse sonho está mais próximo de um pesadelo que do paraíso.
4.5
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Minari
Dirigido por: Lee Isaac Chung
Data de lançamento: 22 de abril de 2021
País de origem: Estados Unidos
Duração: 115 minutos
Gênero:
  • Drama
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