Crítica | “Território Lovecraft”: a realidade causa mais pesadelos que qualquer monstro
×
Bianca Paim
15.10.2020
22:17
Crítica | “Território Lovecraft”: a realidade causa mais pesadelos que qualquer monstro
Capa do livro Território Lovecraft traz arte inspirada na cultura pulp onde se vê uma montanha com uma mansão no topo e com ilustrações que remetem a fantasmas na base, formando o desenho de tentáculos sobre a montanha.

Nos Estados Unidos segregados de 1954, Atticus é um rapaz negro de 22 anos, veterano da Guerra da Coreia, fã de H. P. Lovecraft e outros escritores de pulpfiction. Ao descobrir que o pai desapareceu, ele volta à cidade natal para, com o tio e a amiga, partir em uma missão de resgate. Na viagem até a mansão do herdeiro da propriedade que mantinha um dos ancestrais de Atticus escravizado, o grupo enfrentará sociedades secretas, rituais sanguinolentos e o preconceito de todos os dias. Ao chegar, Atticus encontra seu pai acorrentado, mantido prisioneiro por uma confraria secreta, que orquestra um ritual cujo personagem principal é o próprio Atticus.
A única esperança de salvação do jovem, no entanto, pode ser a semente de sua destruição — e de toda a sua família.
E esta é apenas a primeira parada de uma jornada impressionante.

Estruturado ao mesmo tempo como uma coletânea de contos e um romance, Território Lovecraft apresenta, além de personagens memoráveis, elementos sobrenaturais, como casas assombradas e portais para outras realidades, objetos enfeitiçados e livros mágicos. Um retrato caleidoscópico do racismo — o fantasma que até hoje assombra o mundo —, a obra de Matt Ruff une ficção histórica e pulpnoir ao horror e à fantasia de Lovecraft para explorar os terrores da época de segregação racial nos Estados Unidos.

O que torna essa história especial?

A forma como o autor utiliza o racismo e seus desdobramentos para tornar a narrativa mais complexa é muito interessante, ele não se utiliza de panfletagem vazia jogada na história, a questão está intrínseca e atrelada a narrativa de forma bem feita e bem construída.

A narrativa torna-se mais interessante, profunda e reflexiva ao mesclar o horror fantástico/sobrenatural com o medo real vivido pelos personagens no cotidiano. Como, por exemplo, no conto que explora uma clássica história de mansão mal assombrada a protagonista é uma mulher negra recém chegada a um bairro majoritariamente branco. O terror que ela irá enfrentar com as ameaças constantes dos vizinhos a sua vida é muito mais assustador do que o fantasma com quem ela precisa lidar dentro da casa.
O homem branco é mais temido do que qualquer alma penada.
Essa sacada de pegar elementos do horror clássico ao mesmo tempo que se trata de problemas sociais reais, de forma que tudo se misture de uma forma criativa e inteligente, é o diferencial dessa história, o que a torna original.

O senso de coletividade que permeia toda a história faz um contraponto com a obra de Lovecraft, onde em sua maioria trazem um personagem sozinho desvendando os mistérios. Aqui neste livro encontramos toda uma comunidade de amigos e familiares que se unem para superar as adversidades que lhes são impostas ao mesmo tempo que lidam seus próprios fantasmas. Cada um com sua história e personalidade que tempera mais e mais a narrativa com complexidade.

Contexto histórico

Para quem não conhece muito o cenário dos anos 50 nos Estados Unidos é o seguinte: já fazia mais de um século desde a abolição dos escravos, mas algumas partes do país – principalmente o sul – ainda era EXTREMAMENTE segregacionista, de maneira tão opressiva que leis estaduais e municipais foram criadas para impedir todas as pessoas de cor de frequentarem os mesmos espaços e ambientes da população branca.
O racismo foi institucionalizado.
As conhecidas “Leis Jim Crow” perduraram por muito tempo e só vieram a cair efetivamente por volta de 1965, quando começam a entrar em vigor as leis dos direitos civis e do direito ao voto.
Foi um período grotesco e nojento da história da humanidade, que deixou vestígios nos dias de hoje contra os quais a comunidade negra ainda tem que lutar. Infelizmente.

Leitura crítica: como separar o autor da obra

Um ponto bem acertado foi basear essa narrativa sobre segregação e preconceitos – que se propõe a criticar os horrores e incoerências da época que infelizmente se repetem nos dias atuais – na obra de um autor abertamente racista e xenofóbico (entre outras coisas) que foi Lovecraft. Este é apenas mais um assunto abordado ao longo do livro que pode gerar muito debate e reflexões entre os leitores: de que forma é possível apreciar a obra e a contribuição de um autor para a cultura pop e ao mesmo tempo separá-las de suas opiniões tóxicas e controversas (J.K. temos visita!) Haja leitura crítica.

Metalinguagem

No título deste livro está implícito que o plano de fundo se apoiará na obra lovecraftiana com suas criaturas cósmicas, seitas bizarras, viagens no tempo e dimensões etc. Mas a primeira vez que a expressão aparece na história acontece quando Atticus se depara com uma estante cheia de livros e ao encontrar uma prateleira de títulos conhecidos ele a chama de “Território Lovecraft”, pois contém as obras de todos os autores que fizeram pastiches (obra literária/artistica em que se imita abertamente o estilo de outro autor/artista) em cima da literatura de Lovecraft – como August Derleth, Robert Bloch e Ray Bradburry – de forma que é possível notar a criação de uma metalinguagem de Matt Ruff, uma vez que este livro trata-se também de um pastiche.

Curiosidades

  • O livro foi adaptado para uma série de tv pela HBO em agosto deste ano -com nome de Lovecraft Country – e já vem fazendo muito sucesso. Com nomes como Jordan Peele, J.J. Abrams e Misha Green na produção os episódios são eletrizantes e cheios de efeitos especiais.
  • É bem interessante a série Lovecraft Country vir logo depois de Whatchmen, pois ambas abordam as questões do racismo de forma pertinente e relevante. Além de abordarem, mesmo que com profundidades diferentes, o Massacre de Tulsa de 31 de maio de 1921, onde ambas as séries possuem personagens profundamente afetados por terem vivenciado o terrível evento. As duas produções abordam o acontecimento de forma relevante e necessária.
  • Quem foi Jim Crow? Um ator branco que ficou conhecido por fazer ‘black face’ em suas apresentações além de interpretar personagens extremamente estereotipados de forma bem ofensiva. Isso acabou o transformando em um símbolo do racismo . Uma figura realmente vergonhosa.

Enfim, é complicado falar deste livro sem dar spoilers. A verdade é que a história é recheada de referências históricas e da cultura pop, agrega muita bagagem interessante e traz muitos pontos para debate e reflexão. Tudo isso sem deixar a escrita pesada ou pretenciosa. Pelo contrário, texto é dinâmico e a trama super envolvente.

 

Palavra final: Muita referência cultural e bagagem de cultura pop com vários pontos para refletir, sem deixar a narrativa inacessível. Existem sim pontos a serem discutidos em relação a apresentação de tantas perspectivas negras escritas por um autor branco, o que pode gerar debates. Mas no geral a escrita é fluida, a história é envolvente e entrega entretenimento e informação.
5.0
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Lovecraft Country
Dirigido por:
Data de lançamento: 16/02/16
País de origem: Estados Unidos
Duração:
Gênero:
leia também:
    Mais lidas
Sobre nós
O Portal Popeek foi fundado em novembro de 2019 por amantes das culturas pop e geek, visando informar seu público sobre as novidades nos mundos do cinema, televisão, literatura e múisca, prezando sempre pela transparência e agilidade no trabalho.
E-mail:
[email protected]

Redes sociais:
Popeek © 2019 - 2020
Tema por Danielle Cabral