Crítica | “Torto Arado”: a dor e o labor do Brasil profundo.
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Bianca Paim
06.01.2021
19:55
Crítica | “Torto Arado”: a dor e o labor do Brasil profundo.

Torto arado é uma história muito humana, que fala de um Brasil que ainda existe e resiste, mas que está cada vez mais afastado de nós e da realidade de quem vive nas grandes cidades. A história já começa com uma cena em que a inocência engendra um acidente, e este marcará a vida inteira das irmãs Belonísia e Bibiana, as quais se ligarão. Ao serem vencidas pela curiosidade infantil, decidem abrir a misteriosa mala empoeirada que a avó esconde debaixo da cama, que ninguém sabe o que guarda e descobrem lá uma grande e reluzente faca com cabo de osso a qual as meninas não resistem em explorar. Esta travessura resultará em um acidente que irá torná-las unidas para sempre, e sobre o qual o leitor só terá mais detalhes ao longo da história.  

Temos aqui um romance de formação, que abordará a vida destas personagens da infância à maturidade, acompanhando todas as transformações pelas quais elas irão passar. É um livro que fala, sobretudo, da luta pela terra, do amor a terra, da escravidão que permanece em nosso país como formas diversas de exploração. Ela não foi extinta em 1888 e o livro toca nesta questão. 

A história é dividida em 3 partes e contada por 3 narradoras: as duas primeiras partes são narradas pelas irmãs Bibiana e Belonísia e a terceira e última parte por uma personagem distinta que vai agregar ainda mais originalidade a esta obra. Essa personagem atravessou o tempo e tem uma visão maior do todo, soando como nossa própria consciência social, tendo vivido a escravidão e diversos outros momentos terríveis da população negra. 

As irmãs têm visões diferentes do mundo e, embora sejam muito próximas, estarão distantes em algum momento. Enquanto Bibiana vai ganhando uma consciência política crescente, Belonísia é uma força da natureza, que defende a terra pelo simples fato de não se ver dissociada da terra. Ela é a terra.  

“Sobre a terra há de viver sempre o mais forte.”

O título vem de um verso do poema “Marilia de Dirceu” de Tomás Antonio Gonzaga e é uma expressão que fala sobre esse mundo de trabalho tão arcaico – ao mesmo tempo cruel e presente – que permanece no campo do país. Enquanto temos uma mecanização brutal do trabalho, que expulsa as populações do campo, temos na mesma medida uma população que resiste e trabalha com objetos rústicos, como o arado. O arado torto que aparece na história, que tem uma relação forte com Belonísia, é um instrumento de trabalho que foi carregado pelos antepassados dela e se deformou com o tempo, mas ainda continua a rasgar a terra para semear a vida. 

O livro não é protagonizado por mulheres por acaso. Nestas comunidades rurais, principalmente no sertão da Bahia e interior do nordeste, as mulheres têm um protagonismo muito forte. Os homens terminam morrendo cedo, seja por excesso de trabalho ou pela própria violência que ainda é gritante nos campos do Brasil e as mulheres acabam assumindo este papel principal da família e por consequência também das comunidades, como vemos na história. 

A narrativa de Itamar é de uma poesia e de um lirismo que embalam e acalantam o leitor. Ele surpreende-nos ao virarmos uma folha, na leitura de uma palavra portuguesa-brasileira e na descrição de uma cena realista. Vemos as cores, sentimos a terra nos pés, o sabor na boca e o sofrimento por dentro. Num Brasil tão desesperançoso, encontrar as páginas escritas por Itamar revigoram a alma, resgata-nos o orgulho de sermos brasileiros. Um diamante literário retirado da Chapada.

Todo o desmembramento dessa obra é costurado pela extenuante rotina do campo, as tradições religiosas afro-brasileiras – com suas velas, incensos, rituais de jarê e ensinamentos dos mais velhos. 

“O vento não sopra, ele é a própria vibração. Se o ar não se movimenta, não tem vento, se a gente não se movimenta, não tem vida” 


 É comovente como conseguimos sentir a dor que perpassa a vida desses descendentes de escravizados africanos, que fizeram morada no sertão baiano, para os quais a Abolição significou muito pouco, visto que ainda sobrevivem em situação análoga à escravidão. Isso me lembrou muito uma frase do Kabengele Munanga que dizia mais ou menos assim “O racismo no Brasil é um crime perfeito: ele mata fisicamente, mas mata, sobretudo, na inibição da consciência de todos, brancos e pretos, sobre a existência do racismo em nossa sociedade”. E é isso o que também acontece no livro, esse racismo violento, mas sutil; que dói, mas quase imperceptível aos olhos dos desavisados; uma estrutura que já criou uma raiz muito firme e forte. Entretanto, também é possível sentir com essas histórias que ainda há vitalidade, beleza, coragem e esperança.  
 

“Naquela terra mesmo, entranhada da secura da falta de chuva, deixamos nossos suores para que lhe servisse de alívio. O silêncio da ausência dos pássaros, dos animais que migravam para onde havia água, foi rompido por nossos sussurros. Depois de tanto ouvirmos falar sobre as crianças mortas, a natureza, misteriosa e violenta, nos impelia para conceber a vida.” 

Quando o tempo fica mais pesado e uma parte incompleta de nossas vidas se torna mais insuportável, mergulhar em si e na sua história é um ato de muita coragem para compreendermos quem somos e como viemos parar aqui, e assim ter mais ciência e vitalidade para continuar. 
 
O livro nos dá muito para conhecer mais sobre nós mesmos: uma história brasileira com dor, coragem, espiritualidade, o feminino e disputa de terra. Uma história não muito antiga, a ponto de ser distante demais, mas suficiente para traçar uma linha entre a realidade descrita e a nossa. Um Brasil rural pré-urbanismo, que mostra para quem foram as terras, para quem não foram, como a religião pode sufocar a espiritualidade, de onde as pessoas tiram força e como o Brasil tem uma ferida imensa com sua própria história que ainda dói. 
 
 

Palavra final: Uma história que acaba por apresentar o Brasil ao brasileiro. Torto Arado é uma bela jornada do povo sertanejo, ribeirinho e caboclo, contada com sua devida profundidade, com personagens complexos em uma história real e mágica. Uma escrita fabulosa que entrega todas as ferramentas que um clássico precisa para se tornar inesquecível.
5.0
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Torto Arado
Dirigido por:
Data de lançamento:
País de origem: Brasil
Duração:
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