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Bianca Paim
23.07.2020
09:38
Crítica | Um livro para todos libertar: “Um Caminho para a Liberdade” e o melhor de Jojo Moyes
O título do livro Um Caminho para a Liberdade está sobre a imagem de um céu noturno e estrelado em tons de preto e azul escuro, juntamente com o nome da autora na parte inferior da capa.

Este é um livro sobre livros, sobre amizade, empoderamento e como livros mudam pessoas.

Um Caminho para a Liberdade, é uma ficção histórica que vai contar a trajetória de cinco mulheres, suas vidas e sua persistência em tocar o projeto de uma biblioteca a cavalo no interior dos EUA.

Com sororidade, união e luta como plano de fundo, esta história conta com mulheres fortes e inspiradoras como protagonistas. Elas irão enfrentar muitos perigos para levar livros para as regiões mais remotas. Terão que aprender a cavalgar, a passar por regiões montanhosas e de difícil acesso. Além de encarar os próprios medos e o preconceito opressivo de uma parcela conservadora da comunidade. Não aceitar seu lugar enquanto mulher segundo a bíblia é uma das maiores transgressões que se poderia cometer naquela cidadezinha e elas serão julgadas por seus “pecados”.
Vamos acompanhar estas personagens, apaixonantemente bem construídas, envolvendo-se em diversas outras tramas e enfrentando outros desafios que vão bem além da biblioteca a cavalo.

“Não há nada mais perigoso que uma mulher livre. “

As protagonistas

Alice é uma jovem inglesa que, por sentir-se presa na própria casa pelos pais, decide se casar impulsivamente com o belo Bennett, um americano rico, que não sabe – ou teme – tomar as próprias decisões. Na chegada aos Estados Unidos, Alice esperava ter uma vida feliz e cheia de aventuras.
Ela não poderia estar mais enganada. Um marido influenciável e distante, um sogro controlador e agressivo, uma governanta reguladora são os obstáculos que ela encontra. Tudo muda quando, em uma das inúmeras (e longas, e chatas) idas à Igreja, a ideia de uma Biblioteca a Cavalo é apresentada à população. Apesar da desaprovação do sogro e das suplicas do esposo, Alice se candidata ao cargo de bibliotecária.


Margery é filha de um dos maiores produtores clandestinos de bebida alcoólica da região e carrega o fardo de um sobrenome mal visto. Mulher de falas fortes e atitudes consideradas “masculinas” simplesmente por querer ser livre e decidir o rumo da própria vida. Personagem forte e empoderada que já passou por coisas demais, aprendeu com a vida e com os livros. Quer passar seu amor pela literatura adiante e ajudar a libertar a cidade das amarras da ignorância.


Beth é a única filha mulher em uma família grande e cheia de homens, é engraçada e sempre tem uma resposta na ponta da língua.
Izzy é a filha única de um casal rico, uma garota que passou por uma doença difícil que a deixou com sequelas físicas, e o bullying que sofreu a vida toda por conta disso deixou marcas psicológicas profundas. Seu grande sonho é ser cantora, mas é também um segredo pois sabe que não receberá nenhum apoio.
Sophia é uma mulher forte, inteligente, culta e negra, todos os atributos que uma mulher considerada “de bem” não poderia ter nos anos 1930 nos Estados Unidos.

Contexto histórico para além do livro

Esta é uma ficção histórica que tem como inspiração central o projeto “Pack Horse Library” que aconteceu entre 1935 e 1943 nos apalaches, região montanhosa dos Estados Unidos. Este projeto envolveu cerca de 30 voluntários, especialmente mulheres, que conseguiram atingir pelo menos 100 mil pessoas. Uma iniciativa incrível que impactou e mudou diversas vidas.


Uma das maiores consequências da Grande Depressão que paralisou a economia dos EUA nesta mesma época, foi a pobreza extrema que consequentemente teve vários reflexos na educação do país, uma vez que mais de 30% da população não sabia ler na década de 30, que evidencia a relevância que esta ação viria a ter na vida das pessoas.
O Pack Horse Library não levava apenas livros até elas, levavam esperança, sonhos e uma válvula de escape para uma situação a qual se viam impotentes. Certamente uma iniciativa que merecia ter sua história contada e homenageada.

Vemos uma foto preto e branco de oito mulheres montadas em cavalos abaixo de uma placa que diz "USA PACK HORSE LIBRARY - WPA" nome dado a biblioteca itinerante a cavalo.


Mas os acontecimentos históricos abordados no livro não param por ai. Também em 1930 ocorria um fenômeno nas minas de carvão chamado de “bumps”, onde aconteciam enormes explosões e tremores de terra consequentes da ganância das mineradoras que, visando explorar mais e mais rápidos, decidiam por não usar os pilares de sustentação necessários na estrutura das minas o que colocava a vida de muitos mineiros em risco. Estes fatos são desenvolvidos na história de maneira espetacular.

Opinião

UM CAMINHO PARA A LIBERDADE é um livro que emana dedicação, dá pra ver que a autora quis ser autêntica e trazer um texto que fosse mais que apenas entretenimento. Muita pesquisa foi feita, tanto de contexto histórico quanto de ambientação, para que tudo se encaixasse muito bem aos fatos reais que inspiraram a trama e é possível notar o esmero da autora durante a leitura. Muitas questões importantes trazidas para uma única história: machismo, violência doméstica, racismo, ganância e tantas outras nas quais Jojo Moyes se aprofunda facilmente e consegue dar espaço para diversas vozes. Temos o ponto de vista de Sophia, que por si só poderia dar uma história inteira, sobre as inúmeras adversidades que a personagem teria enfrentado durante toda a vida enquanto uma mulher negra naquela época nos EUA.

Existe um certo preconceito na comunidade literária a respeito de Jojo Moyes e a velha discussão sobre romances românticos estarem abaixo do nível de outras literaturas. Não iremos entrar nestes méritos aqui mas há um alerta que é necessário fazer sobre este livro: esqueça a fórmula centrada em romance da autora, este livro é completamente diferente e se há um amor em grande evidência aqui é o amor pelos livros.


A narrativa é muito bem construída e montada, nos apresenta personagens encantadoras, questionamentos válidos e importantes. Nem todas as personagens recebem grande aprofundamento, mas as que recebem tem carisma suficiente para sustentar a história sem grandes furos.
A escrita é simples e sem muitos detalhes marcantes quanto ao estilo mas é consistente e muito instigante, fazendo o leitor não querer largar as páginas enquanto não souber os desdobramentos das inúmeras tramas.


Eu talvez tenha achado o final um pouco corrido, onde os romances que não eram o foco principal da trama tiveram de se desenrolar em poucos capítulos trazendo um aspecto um tanto conveniente ao desfecho. Ainda assim, considerando a relevância desta história, seu peso e as incontáveis mensagens que nos traz, tais detalhes não diminuem seu mérito. Além de ser um livro sobre livros, vários clássicos e seus trechos são citados ao longo da história o que é muito cativante para o leitor. Prepare os marcadores!
Para quem tem uma ideia formada de que Jojo Moyes é apenas sinônimo de romances melosos, vale muito a pena dar uma chance a esta obra.

Essa história tem grande potencial cinematográfico, tanto que já teve seus direitos audiovisuais comprados antes mesmo de ter sido lançada comercialmente. E claro, faz parte do famoso clube do livro da atriz Reese Witherspoon, o que já virou sinônimo de adaptação na certa.
Fiquemos atentos e atentas pois esta obra ainda não terminou de contar a sua história.

Palavra final: Um leitor não resiste a um livro sobre livros. E Jojo Moyes fez o trabalho direitinho mostrando que é capaz de ir bem além do romance romântico e fazer bonito.
4.7
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: The Giver of Stars
Dirigido por:
Data de lançamento: 03/10/2019
País de origem: Estados Unidos
Duração:
Gênero:
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