Crítica | “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” e os sonhos soterrados sob o peso do patriarcado
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Bianca Paim
14.08.2020
18:47
Crítica | “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” e os sonhos soterrados sob o peso do patriarcado
A capa do livro  A Vida Invisível de Eurídice Gusmão conta com um fundo verde água e a silhueta do penteado e a gola da roupa da protagonista, numa ilustração em branco.

Eurídice, uma mulher que poderia ter sido a minha ou a sua avó, nasceu por volta dos anos 20 no século passado. Tinha uma irmã chamada Guida e ambas eram filhas de imigrantes portugueses, assim como tantas de nossas avós e bisavós. Cada irmã seguiu uma vida diferente, mas as duas encontrariam o mesmo destino reservado para todas as mulheres da época: uma vida cheia de normas e muitos deveres – deveres conjugais,deveres para com a família, deveres para com a sociedade – e pouquíssimos direitos dentro da organização doméstica.

“Ninguém vale muito quando diz ao moço do censo que no campo profissão ele deve escrever as palavras ‘do lar’.”

Eurídice é casada com um respeitado funcionário do Banco do Brasil, um homem considerado bom marido, um “homem de bem” para os padrões da da época, mas que hoje sabemos ser a caricatura da opressão do patriarcado, com princípios e valores que não mais tem espaço nas relações dos tempos atuais.

Eurídice é uma dona de casa muito competente e mãe exemplar de dois filhos. E é também uma mulher talentosíssima, capaz de ser extraordinária em tudo que se propõe. Se resolve cozinhar, é uma cozinheira de mão cheia; se quer tocar flauta, torna-se uma exímia flautista; se decide costurar, vira uma estilista de sucesso. Não é por acaso que a capa deste livro traz a frase: “Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido”.

Até onde uma mulher assim, tão inteligente e fascinada, poderia ter chego se tivesse lhe sido dada a oportunidade? Se pudesse ter tido a vida sonhada ao invés da vida permitida? É este tipo de questionamento que o leitor se faz a todo momento durante a leitura e não apenas sobre Eurídice e sim sobre várias outras personagens incríveis com suas personalidades suprimidas em nome da moral e dos bons costumes.

“A menina olhava melancólica pela janela, como que pensando em tudo o que tinha para viver e que jamais seria vivido.”

Além de personagens interessantes e carismáticas temos, neste primeiro romance de Martha Batalha, um texto simples e gostoso com ares de crônica, um texto leve que fala do dia a dia carregado de bom humor e ao mesmo tempo cheio de sensibilidade.

É a história de uma brasileira que poderia facilmente ter existido e que guardou no fundo de seu âmago todos os seus sonhos e anseios enquanto baixava mais e mais a cabeça para caber na norma e ser considerada “mulher direita”. Eurídice aprendeu a dançar conforme a música e foi julgada e rotulada em todas as vezes que conseguiu encontrar pequenas brechas em tantas regras e tentar ser um pouco ela mesma. E com poucos e singelos passos para fora da invisibilidade, conseguiu acabar tendo um destino surpreendente.

No decorrer da leitura, nos deparamos com citações, festas e ambientes onde aparecem ou são citadas a presença de Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Olavo Bilac, Angelo Agostini, Santos Dumont e até Machado de Assis, que surge brevemente de polainas num baile, apenas para reclamar do barulho (claro!). Esse flerte com o romance histórico torna A Vida Invisível ainda mais vibrante e relacionável. Os ajustes políticos brevemente descritos na obra (o início do governo Vargas e o golpe de 64 são brevemente colocados em cena), a troca de favores entre os muito ricos e o Poder Federal, a divisão de classes claramente definida pela ocupação geográfica do Rio de Janeiro e a passagem do dinheiro de uma classe ou bloco ideológico para outro emprestam uma atmosfera que entendemos muito bem, não só por ser parte de nossa história, mas porque vivemos nela até hoje.

E é também com esse espírito que enxergamos a luta, o choro, os risos e as conquistas das mulheres do livro acontecendo ao longo de nossa História. Um processo lento, fortemente marcado pela palavra “não“, mas com alguma bandeira de direito civil e humano erguida ao final de um ciclo. Acima de tudo, o livro mostra dramas pessoais que não são exclusivos de um gênero, classe ou ideologia, e é exatamente o que faz da obra uma jornada gratificante.

Poster do filme 'A vida invisível' com fundo amarelo e uma colagem multicolorida que representam detalhes da história, juntamente com  imagens das atrizes que interpretam as protagonistas.
Evidenciando a importância desta narrativa, a mesma foi adaptada para os cinemas e dirigida por Karim Aïnouz, com Carol Duarte e a icônica Fernanda Montenegro dividindo o papel de Eurídice Gusmão. Carregando o status de ter recebido premiação na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes deste ano, a obra foi indicada para concorrer a uma vaga ao Oscar de 2020 na categoria de melhor filme internacional, desbancando até o aclamado Bacurau.

A vida permitida

O enredo central da história é simples e de fácil compreensão sem deixar de ser instigante ou enriquecedor, dado o seu carácter detalhado e ambientação histórica. A escrita de Martha é uma delícia, poética e engraçada. Por vezes a autora se usa da repetição de termos para provar certos pontos na narrativa, ou mesmo para manter um tom cômico, que pode vir a incomodar o leitor. Como o uso indiscriminado da expressão “A Parte de Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice” que, apesar de fazer total sentido na trama e nos explicar muito a respeito dos sentimos da personagem (aos quais não temos total acesso, uma vez que o livro é narrado em terceira pessoa), é aplicado quase a exaustão e torna-se uma espécie de trava-língua no ritmo da leitura.

Neste livro de estreia, Martha Batalha consegue explorar uma realidade de modo honesto e inteligente, mostrando o quão ridículos e risíveis são certos pensamentos e hábitos culturais, ao mesmo tempo que coloca em perspectiva o peso e as dores causadas por esses mesmos hábitos, chamando a atenção para a manutenção de alguns deles muito tempo além do que deveriam durar. Um aceno para a luta que não deve terminar tão cedo, pois o mundo está cheio de Eurídices com suas genialidades aprisionadas e suas vidas invisíveis esperando apenas a morte para que, enfim, recebam um pouco de atenção.

Palavra final: Literatura nacional contemporânea de excelente qualidade. Com temática importantíssima, críticas pertinentes, personagens tridimensionais e representativos. Tudo amarrado com uma prosa inteligente e polida no mesmo tanto que é acessível.
4.3
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão
Dirigido por:
Data de lançamento: 05/04/2016
País de origem: Brasil
Duração:
Gênero:
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