Crítica | Com sua visão própria e completa, Zack Snyder traz a Justiça aos Superamigos
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João Pedro G. Tonioli
20.03.2021
19:22
Crítica | Com sua visão própria e completa, Zack Snyder traz a Justiça aos Superamigos
Liga da Justiça de Zack Snyder

Foram anos de espera e movimentação pelas redes sociais, desde fãs aos artistas envolvidos, até que finalmente o Snydercut, a Liga da Justiça de Zack Snyder, pudesse ver a luz do dia através da HBOMax.

Tudo começou quando, ainda durante as gravações de “Liga da Justiça“, Zack Snyder teve de deixar a direção do longa por conta de uma tragédia familiar. Contudo, a Warner Bros. decidiu seguir adiante com o projeto e um novo diretor — Joss Whedon — foi escalado para preencher as lacunas que faltavam. O tiro acabou saindo pela culatra e o novo diretor, que deveria apenas finalizar o que faltava, acabou criando uma série de refilmagens, alterando diversos pontos da trama e o produto final foi o que chegou aos cinemas em 2017, desagradando a crítica, os fãs e até quem esperava apenas um filme decente de super-heróis para passar o tempo.

A campanha #ReleaseTheSnyderCut começou através das redes sociais, principalmente pelo Twitter, e o que diziam ser uma batalha em vão, foi crescendo com o tempo, até que o diretor Zack Snyder divulgou através de uma live que sua versão finalmente veria a luz do dia, em um longa de 4 horas de duração, trazendo todo — literalmente TODO — material idealizado para o longa. Como, no momento em que nos encontramos, assistir a um filme nos cinemas, com 4 horas de duração, era algo totalmente inviável, a opção dada pelo estúdio foi que o diretor o lançasse diretamente em streaming, na HBOMax. E no dia 18 de março ele nasceu.

Agora vamos ao filme. Apesar da cena de abertura da versão teatral de Liga da Justiça ser um dos únicos pontos positivos trazido por Joss Whedon, desde o início da versão de Zack Snyder é perceptível que algo muito diferente está por vir e que realmente existiam horas de gravações não utilizadas ou não utilizadas por completo. Dando seguimento à morte de Superman acontecida em Batman v Superman, Snyder retrata como o mundo sentiu essa perda, com seu grito ecoando por todos os cantos. Mesmo que ainda incompreendido pelos os humanos, eles haviam perdido o seu salvador. E a grande missão dos personagens no longa é trazer esse salvador de volta. O mundo precisa dele.

E esse retorno do Superman se mostrava cada vez mais necessário quando um mal maior que o Apocalypse se aproximava da Terra: Darkseid. Um mal que já havia destruído diversos mundos antes e que era questão de tempo para o planeta dos humanos ser o próximo. O que não esperavam, é que a Terra continuava sendo protegida, desde o povo de Atlantis, ao povo de Themyscera, humanos, velocistas, ciborgues e um homem que se veste de morcego. Zack Snyder então apresenta o vilão que carregaria a trama, o já conhecido do longa anterior, Lobo de Estepe, porém com um trabalho visual mais polido e melhor feito. E então a trama se inicia.

Desde o primeiro ato, Zack Snyder continua trazendo uma de suas maiores qualidades: as lutas grandiosas em escalas épicas. Temos as amazonas em ação contra o vilão, uma das cenas preferida dos fãs na versão anterior, que agora aparece em uma escala ainda maior e mais extensa. O diretor também aproveita sua liberdade com a classificação indicativa do longa e presenteia os fãs com batalhas ainda mais brutais, e às vezes, até sangrenta. Nota-se ainda, algumas referências ao seu primeiro longa, “300“, ainda mais no que se diz no trabalho corporal das amazonas.

No geral, diversas semelhanças podem ser encontradas entre ambas as versões existentes, mas o ponto chave são as diversas diferenças que existem entre ambos. Em seu cerne, a história acaba sendo a mesma, afinal, “é o mesmo filme“, mas o que importa no final das contas, é como o desenrolar dessa história aconteceu, como ela foi estruturada durante as partes e como foi desenvolvida e aprofundada, coisa que a versão teatral falhou em todos os aspectos. Zack Snyder, utilizando de suas 4 horas de duração, conseguiu trazer o melhor desenvolvimento de história dos seus filmes para a DC Comics, aprofundando sempre que necessário, trazendo camadas, tanto para a história, como os personagens que a incorporam. Todo mundo já ouviu falar sobre a Liga da Justiça, mas ainda assim, por ser um filme que apresentam diversos novos personagens, esses personagens precisam ter as suas histórias contadas e mostradas para criar um vínculo com o telespectador. E Snyder usa seu tempo de exibição para isso.

Uma falha gigantesca, e que serve de debate até os dias de hoje, é como Joss Whedon simplesmente podou toda a história e desenvolvimento de Victor Stone, o Cyborg, interpretado por Ray Fisher. O personagem, como dito há muito tempo por Ray e por Snyder, era o coração do filme, uma das principais peças e que simplesmente se tornou um mero coadjuvante na versão teatral. Tal mudança acabou acarretando em acusações de racismo e má conduta de trabalho do ator contra o diretor substituto, que vem acontecendo investigações até hoje pela Warner. Nessa nova versão, temos todo um desenvolvimento para o personagem, trazendo todo um coração para a trama e ainda mostrando o lado mais humano de um ciborgue. E como esperado, ele realmente teve uma enorme importância dentro da trama.

Outro personagem que também acabou sofrendo limitações nas mãos de Whedon foi o Flash de Ezra Miller. O novo personagem teve suas melhores cenas, e até algumas das melhores cenas do filme, cortadas da versão teatral, além de transformá-lo em um personagem bobo e que só servia como alívio cômico. Na nova versão, Flash ainda traz o seu lado cômico, pois claro, isso faz parte do personagem, porém em um timing mais acertado e sem perder o seu lado velocista e cientista que o compõe, como também todo o seu drama familiar e a inserção de seu interesse amoroso, que terá melhor desenvolvimento em seu futuro filme solo. Esse é o verdadeiro Flash que os fãs sempre esperaram.

Batman e Mulher-Maravilha continuam sendo as cabeças do grupo, com suas grandes cenas e sem a necessidade de tanto desenvolvimento prévio por já terem sido apresentados anteriormente. Aquaman ainda não reconhece seu lugar ao trono de Atlantis, visto que os acontecimentos desse longa são anteriores ao seu filme solo, mas ainda podemos ver algumas cenas nas profundezas do oceano, trazendo uma incrível cena de ação ao longo de Mera. Essa versão do personagem traz um contraponto à versão de James Wan no filme de 2018, com um personagem mais bruto, mas sem desmerecer a outra visão.

Superman, mesmo que mova toda a história, desde ao luto de Lois Lane à necessidade do herói para o mundo, ainda é um personagem com pouca presença em tela, retornando apenas em seus momentos finais, mas ainda assim trazendo grandes cenas, como a batalha contra os membros da Liga e a batalha final contra o Lobo de Estepe, mas como o resto do filme, de forma retrabalhada e melhorada. Desde seu retorno ao final do filme, Henry Cavill volta a mostrar como é a pessoa certa para o papel do herói e que precisa que sua história continue.

As 4 horas de duração do longa podem assustar à primeira vista, contudo sua estruturação fez com que sua história se tornasse dinâmica e prendesse o telespectador, principalmente os fãs. Mas ainda assim, foi separado em partes para que aquele que não tenha paciência ou tempo para consumir as 4 horas seguidas, ainda possam desfrutar em menores porções. Em um lançamento teatral, o longa provavelmente contaria com uma menor duração, e algumas cenas realmente poderiam ser cortadas, mas essa nunca foi a intenção do diretor, que queria entregar aos fãs todo o material planejado para o mesmo, em seu total. Até mesmo um epílogo, que acaba se tornando meio inútil ao perceber que essa história provavelmente não será levada a diante pelo estúdio, mas ainda, um grande fanservice.

Em suma, é um genuíno trabalho de Zack Snyder, com todos os seus trejeitos esperados, mesmo que ainda não seja do agrado de todos: câmeras lentas, foco nos detalhes, tons mais escuros e uma grande escala épica. Talvez seja o seu último trabalho com a DC Comics e talvez o seu melhor, mais autoral e completo —, e caso seja, fechou muito bem sua trilogia, iniciada lá em 2013 com Homem de Aço. Zack Snyder traz a Justiça que os Superamigos estavam dependentes desde a catástrofe de 2017.

A Liga da Justiça de Zack Snyder está disponível no Brasil através de aluguel em aplicativos de streaming, como HBOGO, Apple TV+, Google Filmes, Looke e outros.

Palavra final: Em suma, é um genuíno trabalho de Zack Snyder, com todos os seus trejeitos esperados: câmeras lentas, foco nos detalhes, tons mais escuros e uma grande escala épica. Talvez seja o seu último trabalho com a DC Comics — e talvez o seu melhor e mais completo —, e caso seja, fechou muito bem sua trilogia, iniciada lá em 2013 com Homem de Aço. Zack Snyder traz a Justiça que os Superamigos estavam dependentes desde a catástrofe de 2017.
4.0
Nota do autor:
Ficha técnica
Título original: Zack Snyder's Justice League
Dirigido por: Zack Snyder
Data de lançamento: 18/03/2021
País de origem: Estados Unidos
Duração: 242 minutos
Gênero:
  • Ação
  • Fantasia
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